A mentira ganha força? A era da “pós-verdade”!
É urgente uma reflexão séria sobre um
fenômeno, muito atual e, a meu ver, preocupante em nossos dias, e que toma
especial importância com a proximidade da eleição em nosso país, neste ano de
2018. Trata-se do fenômeno em que fatos objetivos com indícios substanciais de
verdade, tem menos importância na formação da opinião pública do que crenças,
ideologias e até mesmo apelos emocionais. Em resumo, estamos ignorando dados da
realidade para darmos a nossa interpretação de acordo com a nossa emoção e as
nossas crenças. Esta circunstância, segundo algumas publicações, ganhou até uma
palavra no dicionário da língua inglesa, destacada no ano de 2016 pelo
departamento de dicionários da Universidade Oxford e que, traduzida para o
português, está se tornando conhecida pelo termo “pós-verdade”.
Estamos na era da “pós-verdade”? Vivemos,
então, uma época “depois da verdade” pelo que se depreende do termo! Isto quer
dizer que o compromisso com a verdade dos fatos está perdendo espaço para
outros ingredientes subjetivos e que estamos sendo tolerantes com a mentira. A
mentira não propicia uma avaliação real da situação e sem uma correta
avaliação, as soluções propostas têm uma grande chance de dar errado. A mentira
alimenta sonhos, mas não nutre um organismo.
Afinal o nosso compromisso
fundamental ético e moral não deve ser com a verdade? Se olharmos também do
ponto de vista religioso, cristão, a bíblia nos alerta que devemos estar
despertos e devemos buscar a verdade onde ela estiver. “Conhecei a verdade e
ela vos fará livres”, fala o livrinho sagrado. Depreende-se do texto bíblico,
por lógico, que a mentira então nos aprisiona. Temos ou não o dever de lutar
para sermos livres, autodeterminados, ou isto é uma questão de escolha pessoal?
O resultado coletivo interliga-se às nossas escolhas pessoais e, portanto,
quando um número grande de indivíduos age de forma inadequada acaba refletindo
negativamente na vida de outros indivíduos e na sociedade como um todo. Pessoas
responsáveis, portanto, devem zelar por um agir apropriado de todos os
indivíduos.
Entendo está situação do
“pós-verdade” como preocupante. Pois, ela nos remete a que estamos deixando de
lado o tão necessário “bom senso” ensinado pelos nossos pais, para cairmos na
aventura da emoção e da paixão, nem sempre as melhores conselheiras.
Falamos tanto na situação ética da
nossa política e da nossa preocupante situação econômica, sendo que muitos
estão dispostos a assumir irresponsavelmente, desde logo, um candidato a
presidência da República, sem ouvir os demais, sem o devido debate e avaliação
dos compromissos que estão sendo assumidos por todos os pretendentes ao cargo!
Sim porque há de ter alguns candidatos bem-intencionados e que merecem o
respeito de serem ouvidos com atenção. Como
assim, a campanha nem iniciou e muita gente já cristalizou seu voto? Certamente
é um voto partidário, ideológico, que nem sempre será a melhor opção. O sensato
é ouvir o que todos estão propondo e ver o que isto representaria caso
chegassem ao governo.
Vamos relevar o passado e as dúvidas
que pairam sobre determinados candidatos em detrimento do nosso compromisso de
votar pelo melhor para o país e deixar prevalecer a nossa ideologia?
Vamos reduzir o debate entre o “nós e
eles” numa redução simplista de tornar tudo apenas uma luta de esquerda e
direita, como se não fôssemos um todo, uma nação, e não precisássemos zelar
pelo conjunto, pois é o todo que nos viabiliza economicamente e socialmente?
O pais precisa produzir riquezas e
para isto precisa de todos os agentes econômicos. Sem riqueza, sem progresso
não há o que distribuir. É fundamental o necessário o equilíbrio e certamente
as melhores soluções não estão nas posições extremadas e sim as mais ao centro
do leque de opções?
Vamos deixar de analisar que as
circunstâncias mudam e que a cada momento precisamos fazer nova avaliação da
situação que poderá exigir uma nova atitude?
Vamos ignorar que não basta se eleger
e que é preciso ter força para governar? Que temos que eleger alguém que una o
país e seja capaz de comandar um projeto que não exclua ninguém, fazendo um
governo para todos.
Em um contexto de compromisso com a
verdade não podemos ser hipócritas e fazer de conta que não percebemos uma luta
de poder pelo poder, sem olhar para os interesses gerais do nosso povo, em que
prevalece a mentira como uma arma importante de luta. Para isto a internet é
bombardeada diariamente com informações tendenciosas, manipuladas e que são
também maliciosamente ou inocentemente compartilhas por milhares de
simpatizantes. Não podemos ser complacentes com mentiras que circulam como
verdades, porque isto beneficia ideologias e fecha caminhos para a observação
dos fatos, muitas vezes graves. Não podemos ignorar que há verdadeiros
laboratórios do crime, trabalhando dia e noite para disseminar informações
falsas que beneficiem ou prejudiquem este ou aquele.
Precisamos analisar os fatos e ver o que eles
nos indicam doa ao quem doer. Nossa responsabilidade de cidadãos conscientes e
autodeterminados é lutar para que a verdade seja respeitada e valorizada acima
de paixões ideológicas como uma condição inalienável para o nosso bem e nosso
progresso. A história, e de forma mais marcante os episódios que resultaram em
guerras sangrentas que vitimaram milhões, notadamente a II Guerra Mundial, nos
ensinam que muitos erros que levaram a catástrofes da humanidade resultaram do
fanatismo religioso e político que cega, das mentiras da propaganda enganosa, da
manipulação de fatos e da omissão de milhões de pessoas que mesmo sabendo da
verdade toleraram a mentira que beneficiava suas crenças.
Queremos
repetir esta história?
Carazinho, 04/02/2018
Orlando Vanin Trage