segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A mentira ganha força? A era da “pós-verdade”!
É urgente uma reflexão séria sobre um fenômeno, muito atual e, a meu ver, preocupante em nossos dias, e que toma especial importância com a proximidade da eleição em nosso país, neste ano de 2018. Trata-se do fenômeno em que fatos objetivos com indícios substanciais de verdade, tem menos importância na formação da opinião pública do que crenças, ideologias e até mesmo apelos emocionais. Em resumo, estamos ignorando dados da realidade para darmos a nossa interpretação de acordo com a nossa emoção e as nossas crenças. Esta circunstância, segundo algumas publicações, ganhou até uma palavra no dicionário da língua inglesa, destacada no ano de 2016 pelo departamento de dicionários da Universidade Oxford e que, traduzida para o português, está se tornando conhecida pelo termo “pós-verdade”.
Estamos na era da “pós-verdade”? Vivemos, então, uma época “depois da verdade” pelo que se depreende do termo! Isto quer dizer que o compromisso com a verdade dos fatos está perdendo espaço para outros ingredientes subjetivos e que estamos sendo tolerantes com a mentira. A mentira não propicia uma avaliação real da situação e sem uma correta avaliação, as soluções propostas têm uma grande chance de dar errado. A mentira alimenta sonhos, mas não nutre um organismo.
Afinal o nosso compromisso fundamental ético e moral não deve ser com a verdade? Se olharmos também do ponto de vista religioso, cristão, a bíblia nos alerta que devemos estar despertos e devemos buscar a verdade onde ela estiver. “Conhecei a verdade e ela vos fará livres”, fala o livrinho sagrado. Depreende-se do texto bíblico, por lógico, que a mentira então nos aprisiona. Temos ou não o dever de lutar para sermos livres, autodeterminados, ou isto é uma questão de escolha pessoal? O resultado coletivo interliga-se às nossas escolhas pessoais e, portanto, quando um número grande de indivíduos age de forma inadequada acaba refletindo negativamente na vida de outros indivíduos e na sociedade como um todo. Pessoas responsáveis, portanto, devem zelar por um agir apropriado de todos os indivíduos.
Entendo está situação do “pós-verdade” como preocupante. Pois, ela nos remete a que estamos deixando de lado o tão necessário “bom senso” ensinado pelos nossos pais, para cairmos na aventura da emoção e da paixão, nem sempre as melhores conselheiras.
Falamos tanto na situação ética da nossa política e da nossa preocupante situação econômica, sendo que muitos estão dispostos a assumir irresponsavelmente, desde logo, um candidato a presidência da República, sem ouvir os demais, sem o devido debate e avaliação dos compromissos que estão sendo assumidos por todos os pretendentes ao cargo! Sim porque há de ter alguns candidatos bem-intencionados e que merecem o respeito de serem ouvidos com atenção.  Como assim, a campanha nem iniciou e muita gente já cristalizou seu voto? Certamente é um voto partidário, ideológico, que nem sempre será a melhor opção. O sensato é ouvir o que todos estão propondo e ver o que isto representaria caso chegassem ao governo.
Vamos relevar o passado e as dúvidas que pairam sobre determinados candidatos em detrimento do nosso compromisso de votar pelo melhor para o país e deixar prevalecer a nossa ideologia?
Vamos reduzir o debate entre o “nós e eles” numa redução simplista de tornar tudo apenas uma luta de esquerda e direita, como se não fôssemos um todo, uma nação, e não precisássemos zelar pelo conjunto, pois é o todo que nos viabiliza economicamente e socialmente?
O pais precisa produzir riquezas e para isto precisa de todos os agentes econômicos. Sem riqueza, sem progresso não há o que distribuir. É fundamental o necessário o equilíbrio e certamente as melhores soluções não estão nas posições extremadas e sim as mais ao centro do leque de opções?
Vamos deixar de analisar que as circunstâncias mudam e que a cada momento precisamos fazer nova avaliação da situação que poderá exigir uma nova atitude?
Vamos ignorar que não basta se eleger e que é preciso ter força para governar? Que temos que eleger alguém que una o país e seja capaz de comandar um projeto que não exclua ninguém, fazendo um governo para todos.
Em um contexto de compromisso com a verdade não podemos ser hipócritas e fazer de conta que não percebemos uma luta de poder pelo poder, sem olhar para os interesses gerais do nosso povo, em que prevalece a mentira como uma arma importante de luta. Para isto a internet é bombardeada diariamente com informações tendenciosas, manipuladas e que são também maliciosamente ou inocentemente compartilhas por milhares de simpatizantes. Não podemos ser complacentes com mentiras que circulam como verdades, porque isto beneficia ideologias e fecha caminhos para a observação dos fatos, muitas vezes graves. Não podemos ignorar que há verdadeiros laboratórios do crime, trabalhando dia e noite para disseminar informações falsas que beneficiem ou prejudiquem este ou aquele.
 Precisamos analisar os fatos e ver o que eles nos indicam doa ao quem doer. Nossa responsabilidade de cidadãos conscientes e autodeterminados é lutar para que a verdade seja respeitada e valorizada acima de paixões ideológicas como uma condição inalienável para o nosso bem e nosso progresso. A história, e de forma mais marcante os episódios que resultaram em guerras sangrentas que vitimaram milhões, notadamente a II Guerra Mundial, nos ensinam que muitos erros que levaram a catástrofes da humanidade resultaram do fanatismo religioso e político que cega, das mentiras da propaganda enganosa, da manipulação de fatos e da omissão de milhões de pessoas que mesmo sabendo da verdade toleraram a mentira que beneficiava suas crenças.
          Queremos repetir esta história?
                        

                                                             Carazinho, 04/02/2018

                                                             Orlando Vanin Trage