Esquerda? Direita? O que Significa Isto?
Cada vez que temos uma eleição no Brasil e em quase todos os lugares do
mundo, ouvimos falar em partidos de direita e partidos de esquerda e muitos
colocam esta disputa como uma luta do bem contra o mal. Mas afinal de contas,
hoje, o que significa ter posicionamento ideológico de esquerda ou direita? É
fácil ter uma definição clara do conjunto de ideias que representam esta ou
aquela posição?
Acredito que haja em nosso meio uma ignorância do que hoje significam
realmente estes dois termos e, só para deixarmos bem explícita esta confusão de
conceitos, em nossa última eleição presidencial tivemos os três principais
candidatos mais votados todos da esquerda: Dilma, Aécio Neves e Marina Silva.
No segundo turno era uma disputa apenas dentro da esquerda: Dilma e Aécio. Os
menos informados falavam nas redes sociais de uma disputa entre a esquerda e a
direita e as agressões foram muitas em nome das posições ideológicas dos
candidatos. Será surpresa para muitos que o PSDB, em seu nome e no seu estatuto
é a rigor um partido socialista e, portanto, de esquerda. Então, o que tivemos
no segundo turno da última eleição presidencial brasileira, foi uma disputa de
forças que não envolvia a direita e a esquerda. Na verdade são poucos os
políticos que assumem o discurso da direita. Será que teremos que ver um
candidato da direita para que os nossos eleitores compreendam a diferença? Quem
sabe na próxima eleição presidencial, o Bolsonaro não sai candidato?
Como se pode constatar do exposto acima, para a grande maioria dos
brasileiros não está nada claro estas definições de direita ou esquerda.
Segundo uma pesquisa comentada no blog: http://www.veja.com/felipemourabrasil, apenas nove por cento dos brasileiros se declararam de “esquerda” e o
mesmo percentual se declarou de “direita”. O percentual que se declarou de
“centro” foi mais baixo ainda, algo em torno de apenas quatro por cento.
Este ano estou novamente me propondo a escrever, contribuindo para com
meus concidadãos, com matérias sobre política e cidadania. Entendo que todos são
responsáveis por formar a consciência política do nosso povo. O conceito de
direita e esquerda é básico na política, mas a pesquisa e as nossas últimas
eleições estão demonstrando que o brasileiro entende pouco destes conceitos, de
forma que vou começar analisando a origem dos termos direita e esquerda.
Historicamente sabemos que durante as assembleias do século dezoito
(1789-1799), na primeira fase da Revolução Francesa, a burguesia procurava
mudanças, com o apoio da população mais pobre, tentava diminuir os poderes da
nobreza e do clero.
Com a instalação da Assembleia Nacional Constituinte montada para criar
a nova Constituição, as camadas mais ricas se juntaram a nobreza e ao clero e
preferiram não se misturar aos plebeus, sentando separadas, do lado direito do
presidente. A ala dos constituintes que sentavam do lado esquerdo, a dos
plebeus, ficou associada às mudanças sociais e à luta pelos direitos dos
trabalhadores. A ala dos constituintes do lado direito ficou ligada ao
conservadorismo e à elite. Se simplesmente os mais ricos, a nobreza e o
clero tivessem escolhido sentar do lado esquerdo, hoje os conceitos de direita
e esquerda seriam invertidos. Portanto, tudo começou com o lado que os
representantes sentavam em relação à mesa dos trabalhos e os interesses que
eles representavam.
Até determinada fase histórica foi simples, portanto, definir a
ideologia da esquerda e da direita. Dentro dessa visão histórica, ser de
esquerda presumiria a luta por mudanças, a defesa pelos direitos dos
trabalhadores e das populações mais pobres e minorias, com mais preocupação com
o coletivo e a participação popular nas decisões do governo. Seria a ala das
mudanças. Já a direita teria uma visão menos progressista, ligada a um pensamento
conservador, que busca manter o poder vigente e promover o bem estar
individual. É a ala da lei e da ordem.
Em nossa visão, hoje vivemos um novo cenário político e neste novo
contexto, simplesmente as palavras “esquerda” e “direita” parecem não dar conta
da diversidade política do nosso tempo. Isso não quer dizer que a divisão tenha
perdido totalmente o sentido. O que temos que ter em mente é que as expressões
“esquerda” e “direita” não definem conceitos imutáveis. Os conceitos são
dinâmicos e podem ter diversos significados, conforme a fase histórica e suas
diversas situações. Segundo o blog, http://www.veja.com/felipemourabrasil,
citando o pensamento de Bobbio, expresso no livro "Direita e Esquerda -
Razões e Significados de uma Distinção Política, “os contrastes existem, mas
não são mais os mesmos do tempo em que nasceu a distinção".
As expressões direita e esquerda, entendidas da forma antiga, hoje, por
exemplo, seriam de esquerda os partidos que se colocam contra o regime vigente
(oposição) e os defensores do governo e do continuismo (situação) seriam a ala
“de direita”. Portando, segundo estes conceitos de direita e esquerda, no
momento atual do Brasil, o PT defendendo a situação atual e a sua continuidade,
seria a direita e os partidos de oposição, bradando por mudanças (PSDB, DEM,
etc.) seriam a esquerda, isto na visão da antiga assembleia francesa da época
de Napoleão.
Hoje, usar apenas a expressão “esquerda” ou “direita”, na nossa visão, é
uma forma simplista de conceituar correntes de opinião muito diversificadas e
que não traz mais no seu bojo, tudo o que esta corrente pode representar. Além
do que, todas as correntes que vão da esquerda para a direita, desde os
extremos, vão passando por um leque grande de posicionamentos. Com o tempo,
outras divisões apareceram dentro de cada uma dessas ideologias.
Segundo vários autores, essas classificações estariam divididas no que
podemos chamar de uma “régua” ideológica.
Vejamos o que diz Felipe Moura Brasil ⎯ em seu blog: disponível em: http://www.veja.com/felipemourabrasil:
EXTREMA-ESQUERDA |
ESQUERDA | CENTRO-ESQUERDA | CENTRO | CENTRO-DIREITA | DIREITA |
EXTREMA-DIREITA Há ainda posição de "centro". Esse pensamento
consegue defender o capitalismo sem deixar de se preocupar com o lado social.
Em teoria, a política de centro prega mais tolerância e equilíbrio na
sociedade. No entanto, ela pode estar mais alinhada com a política de esquerda
ou de direita. A origem desse termo vem da Roma Antiga, que o descreve na
frase: "In mediun itos" (a virtude está no meio).
A política de
centro também pode ser chamada de "terceira via", que idealmente se
apresenta não como uma forma de compromisso entre esquerda e direita, mas como
uma superação simultânea de uma e de outra.
Vejo também confuso este cenário, quando podemos constatar que em determinados
momentos da história, ambas as ideologias, direita e esquerda assumiram
posturas radicais e, nesta posição, tiveram efeitos e atitudes muito parecidas,
como a interferência direta do Estado na vida da população, uso de violência e
censura para contra opositores e a manutenção de um mesmo governo ou liderança
no poder. Ditaduras são ditaduras, sejam da esquerda ou da direita, sempre com
várias ações muito semelhantes. Não há ditadura boa, seja de que lado for,
vamos deixar bem claro isto. Na eterna luta Esquerda x Direita, as pessoas de
esquerda só acusam os crimes das ditaduras de direita. O pessoal da direita
acusa os crimes da esquerda. Os assassinatos de Pinochet (direita) no Chile e
os assassinatos (cotas de eliminação) na antiga União Soviética (esquerda), em
última análise são os mesmos e merecem o mesmo julgamento. Sem essa de pensar
que os fins, lavam com água benta o sangue derramado do assassinato dos
adversários políticos.
Mais um exemplo da
confusão na cabeça dos brasileiros é o exemplo da figura do ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso, um socialista, que fez toda a carreira política como
um homem de esquerda, tanto que só não foi para o PT, pois, segundo algumas
fontes, queria outro nome para o novo partido, que fosse mais abrangente. No
entanto nas redes sociais aparece sendo satanizado pelo pessoal que se diz da
esquerda como se fosse uma figura da extrema direita. Também José Serra, homem
de esquerda, ex-presidente da União Nacional de Estudantes que foi exilado
político do regime militar, sofre o mesmo tratamento.
Agora vamos
aprofundar um pouco mais o que temos de informações sobre as duas correntes. Transcrevo
o texto do Blog: http://www.veja.com/felipemourabrasil:
(...)
Ao longo do século 20, parte do pensamento de esquerda foi associada a
bases ideológicas como marxismo, socialismo, anarquismo, desenvolvimentismo e
nacionalismo anti-imperialista. .
O mesmo período viu
florescer Estados de ideologias totalitárias como o nazismo (1933-1945),
fascismo (1922-1943), franquismo (1939-1975) e salazarismo (1926-1974), que
muitas vezes se apropriaram de discursos até mesmo mais da esquerda do que da
direita.
Outro tema
fundamental para as duas correntes é a visão sobre a economia. Os de esquerda
pregam uma economia solidária, com maior distribuição de renda. O valor está no
coletivo e no estado grande e poderoso. Os de direita seriam associados ao
liberalismo, doutrina que na economia pode indicar os que procuram manter a
livre iniciativa de mercado e os direitos à propriedade particular e a
valorização do indivíduo. Mas isso não significa que um governo de direita não
possa ter uma influência forte no Estado, como aconteceu na Ditadura. Em
regimes não-democráticos, a direita é associada a um controle total do
Estado.
O termo
neoliberalismo surgiu a partir dos anos 1980, associados aos governos de Ronald
Reagan e Margareth Thatcher, que devido à crise econômica do petróleo,
privatizaram muitas empresas públicas e cortaram gastos sociais para atingir um
equilíbrio fiscal. Era o fim do chamado Estado de Bem-Estar Social e o começo do
Estado Mínimo, com gastos enxutos.
Para a esquerda, o
neoliberalismo é associado à direita e teria como consequências a privatização
de bens comuns e espaços públicos, a flexibilização de direitos conquistados e
a desregulação e liberalização em nome do livre mercado, o que poderia gerar
mais desigualdades sociais.
O liberalismo não
significa necessariamente conservadorismo moral. Na raiz, o adjetivo liberal é
associado à pessoa que tem ideias e uma atitude aberta ou tolerante, que pode
incluir a defensa de liberdades civis e direitos humanos. Já o conservador
seria aquele com um pensamento tradicional. Na política, o conservadorismo
busca manter o sistema político existente, que seria oposto ao progressismo.
Hoje o PT em nosso país se enquadraria em um partido conservador, pois se opõe
a mudanças e quer manter o status vigente. Quer ter hegemonia no poder. E a
oposição seria progressista, exigindo mudanças.
Direita e esquerda
também têm a ver com questões morais. Avanços na legislação em direitos civis e
temas como aborto, casamento gay e legalização das drogas são vistas como
bandeiras da esquerda, com a direita assumindo a defesa da família tradicional.
Nos Estados Unidos, muitos eleitores se identificam com a chamada direita
cristã, que defendem a interferência da religião no Estado.
No entanto, vale
destacar que hoje muitos membros de partidos tidos como centro-direita defendem
tais bandeiras da esquerda, exceto nos partidos de extrema-direita (como
podemos observar na Europa), que são associados ao patriotismo, com discurso
forte contra a imigração (xenofobia).
Temos a forte convicção de que, de esquerda ou direita, o
eleitor tem direito de escolher conscientemente e para isto, nos dias atuais, é
absolutamente necessário que os partidos e os candidatos detalhem amplamente os
seus planos de governo. É preciso ter as minúcias dos programas, pois como
vimos, em determinados momentos uma corrente pode vir a adotar atitudes típicas
da corrente adversária.
O fundamental é que se viva a normalidade democrática. Segundo, Olavo
de Carvalho em um trecho do artigo “Democracia normal e patológica” , publicado no dia 5 de
outubro de 2011 no Diário do Comércio, normalidade democrática é:
(...)
a concorrência efetiva, livre, aberta, legal e ordenada de duas ideologias que
pretendem representar os melhores interesses da população: de um lado, a
“esquerda”, que favorece o controle estatal da economia e a
interferência ativa do governo em todos os setores da vida social, colocando o
ideal igualitário acima de outras considerações de ordem moral, cultural,
patriótica ou religiosa. De outro, a “direita”, que
favorece a liberdade de mercado, defende os direitos individuais e os poderes
sociais intermediários contra a intervenção do Estado e coloca o patriotismo e
os valores religiosos e culturais tradicionais acima de quaisquer projetos de
reforma da sociedade.
Representadas por dois ou mais partidos e amparadas nos seus
respectivos mentores intelectuais e órgãos de mídia, essas forças se alternam
no governo conforme as favoreça o resultado de eleições livres e periódicas, de
modo que os sucessos e fracassos de cada uma durante sua passagem pelo poder
sejam mutuamente compensados e tudo concorra, no fim das contas, para o
benefício da população.
Entre a esquerda e a direita estende-se toda uma zona indecisa
de mesclagens e transigências, que podem assumir a forma de partidos menores
independentes ou consolidarem-se como política permanente de concessões mútuas
entre as duas facções maiores. É o “centro”, que se
define precisamente por não ser nada além da própria forma geral do sistema
indevidamente transmutada às vezes em arremedo de facção política, como se numa
partida de futebol o manual de instruções pretendesse ser um terceiro time em
campo.
Nas beiradas do quadro legítimo, florescendo em zonas
fronteiriças entre a política e o crime, há os “extremismos” de parte a parte: a
extrema esquerda prega
a submissão integral da sociedade a uma ideologia revolucionária personificada
num Partido-Estado, a extinção completa dos valores morais e religiosos
tradicionais, o igualitarismo forçado por meio da intervenção fiscal,
judiciária e policial. A extrema direita propõe a criminalização de toda a
esquerda, a imposição da uniformidade moral e religiosa sob a bandeira de
valores tradicionais, a transmutação de toda a sociedade numa militância
patriótica obediente e disciplinada.
Não é o apelo à violência que define, ostensivamente e em
primeira instância, os dois extremismos: tanto um quanto o outro admitem
alternar os meios violentos e pacíficos de luta conforme as exigências do
momento, submetendo a frias considerações de mera oportunidade, com notável amoralismo
e não sem uma ponta de orgulho maquiavélico, a escolha entre o morticínio e a
sedução. Isso permite que forjem alianças, alternadamente ou ao mesmo tempo,
com gangues de delinqüentes e com os partidos legítimos, às vezes desfrutando
gostosamente de uma espécie de direito ao crime.
Não é uma coincidência que, quando sobem ao poder ou se
apropriam de uma parte dele, os dois favoreçam igualmente uma economia de
intervenção estatista. Isto não se deve ao slogan de que “os extremos se tocam”, mas à
simples razão de que nenhuma política de transformação forçada da sociedade se
pode realizar sem o controle estatal da atividade econômica, pouco importando
que seja imposto em nome do igualitarismo ou do nacionalismo, do futurismo
utópico ou do tradicionalismo mais obstinado. Por essa razão, ambos
os extremismos são sempre inimigos da direita, mas, da esquerda, só de vez em
quando.
A extrema esquerda só se distingue da
esquerda por uma questão de grau (ou de pressa relativa), pois ambas visam
em última instância ao mesmo objetivo. Já a extrema direita e a direita,
mesmo quando seus discursos convergem no tópico dos valores morais ou do
anti-esquerdismo programático, acabam sempre se revelando
incompatíveis em essência: é materialmente impossível praticar
ao mesmo tempo a liberdade de mercado e o controle estatal da economia, a
preservação dos direitos individuais e a militarização da sociedade.
Isso é uma vantagem permanente a favor da
esquerda: alianças transnacionais da esquerda com a extrema esquerda
sempre existiram, como a Internacional Comunista, o Front Popular da França e,
hoje, o Foro de São Paulo. Uma “internacional de direita” é uma impossibilidade
pura e simples. Essa desvantagem da direita é compensada no campo econômico, em
parte, pela inviabilidade intrínseca do estatismo integral, que obriga a
esquerda a fazer periódicas concessões ao capitalismo.
Embora essas noções sejam óbvias e facilmente comprováveis pela
observação do que se passa no mundo, você não pode adquiri-las em nenhuma
universidade brasileira.
Agora que já temos um embasamento mínimo sobre esquerda e
direita, vamos convir que colocar durante as eleições esta relação como uma
luta de anjos e demônios, não tem nada a ver com um processo responsável e
cidadão de escolha dos governantes. Dá para se perceber que em política nenhuma
corrente é pura, imaculada. Todos são um misto de anjinhos e diabinhos, o que
varia é a dose!
Em minha opinião, nenhum dos lados é essencialmente bom ou ruim.
Quando existem dois lados e um destacadamente se mostra melhor, o outro lado implode
e desaparece. E estes dois lados para nossa comprovação vem convivendo e
alternando-se no poder em todas as democracias, portanto nenhum é hegemônico! Por
que a esquerda, de tempos em tempos, tem que fazer concessões para a direita na
economia, como está acontecendo agora no Brasil? Porque a direita tem que fazer
concessões a esquerda na área social? Não seria a alternância no poder uma
forma de equilíbrio e garantia da democracia, da tolerância e da paz social?
Pensem nisso aqueles que imaginam que se uma corrente sair e entrar outra,
todas as conquistas vão se perder! Será que as conquistas não seriam até
eventualmente aperfeiçoadas com algumas reformatações? E notem bem, depois que
as conquistas acontecem nada volta para estaca zero. Sempre partimos de onde
estamos! E para finalizar uma expressão bem chula: Quanto alguém vorazmente
está mamando durante muitos anos nas tetas do governo, tem que desmamar
enquanto é tempo, antes que vire um monstro quase invencível, difícil de ser
domado! Deu para perceber que entendo a alternância do poder, de tempos em
tempos, como muito salutar a democracia e que é justamente estes contrapontos entre
as correntes que moraliza, aperfeiçoa a política e a administração pública.
Alegria, 20 de
janeiro de 2016
Orlando Vanin Trage
Cirurgião-dentista e escritor
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