sábado, 28 de março de 2020


AS EPIDEMIAS E A NOSSA FALSA SENSAÇÃO DE SEGURANÇA


Orlando Vanin Trage*

         Os acontecimentos atuais da pandemia do Covid-19 estão a nos mostrar que era falsa a nossa sensação de segurança em relação às grandes epidemias. Eu mesmo cometi este erro falando aos meus ouvintes durante algumas palestras, dizendo de como é bom termos nascido nesta época de progresso da ciência com tantas tecnologias que nos conectam ao mundo em tempo real, meios de transporte que fizeram o mundo tornar-se pequeno, frente às velocidades alcançadas pelos modernos aviões que nos levam em questões de horas de um hemisfério ao outro do globo. Mas o que eu mais destacava, era o progresso da medicina: exames médicos capazes de fazer uma varredura em nosso corpo todo, bem como analisá-lo do ponto de vista bioquímico, histológico e fisiológico.  Quantos progressos em relação ao controle da dor, melhoras espantosas das técnicas cirúrgicas, transplantes de órgãos, imunologia, antibióticos e medicamentos em geral; enfim realmente no campo da medicina, em alguns setores, o progresso é espantoso. E eu estava enganado quando afirmava que estávamos livres das grandes epidemias e da peste, que estes males eram coisas do passado! Hoje os fatos nos mostram que estamos sob ameaça pela Covid-19 e no futuro poderemos ter até mesmo outros agentes virais novos, com letalidade bem maior do que o atual Corona Vírus a rondar as nossas vidas.
Achamos caro pagar dois mil reais para um técnico de enfermagem, cinco mil reais para uma enfermeira, quinze ou vinte mil para um médico, e em torno de quinze mil por mês para um cientista. Gastar um milhão com uma pesquisa nos parece um número absurdo! Mas, achamos natural um jogador de futebol ou artistas, ganharem milhões. Não nos surpreendemos até mesmo com a classe política consumir bilhões do orçamento da nação, isto sem falar no escandaloso financiamento público das campanhas políticas. Para quem nossas esperanças de ajuda se voltam neste momento de grande atribulação em que temos uma doença nova que ainda não tem tratamento e prevenção segura? Para o pessoal da saúde e os cientistas, ou os atletas, artistas e políticos milionários? Quem são os nossos heróis anônimos que fazem vacinas, medem pressão, realizam exames, fazem diagnóstico, prescrevem e administram medicação e tratamento? Que se expõem a contaminação e que estão e estarão sempre lá, aconteça o que acontecer?
        Lembro que, minha mãe nos contava que uma das nossas vizinhas imigrante alemã, havia perdido o primeiro marido e dois filhos na epidemia da Gripe Espanhola de 1918. “Naquela época a família chegava do enterro de um parente e já tinha que ir ao enterro de outro, isto quando iam, pois quem podia se fechava em casa”, explicava minha mãe. O número de vítimas fatais daquela epidemia realmente foi grande. Relatos históricos nos contam que em seis meses da Gripe Espanhola, morreram mais pessoas do que nos quatro anos de batalhas da I Guerra Mundial. Jornais dos anos de 1918-19 expressam o drama social e as angústias vividas pelas pessoas da época: o medo da morte, a perda das referências afetivas, o isolamento, a ruptura com vínculos sociais das ruas e da comunidade. Além do que, havia também a revolta com os sistemas de saúde então existentes que não davam um mínimo de suporte as necessidades da população. Foi a partir desta epidemia que os serviços públicos de saúde tiveram uma maior atenção dos governantes e maiores orçamentos. Precisou morrer muita gente para isto acontecer. Gastava-se mais com a polícia do que com a saúde. Esta nova epidemia vai nos ensinar a lição de que precisamos investir seriamente em saúde?
           Na época, a gripe espanhola viajou nos navios para chegar aos continentes. Andou na carona do trem e até mesmo de carroça para chegar ao interior, levando meses para disseminar-se. Segundo, Torres (2007) no Rio Grande do Sul ela chegou a bordo de dois navios que aportaram em Rio Grande, em outubro de 1918, e depois em Porto Alegre, com vários marinheiros doentes a bordo, isto depois da recusa de poderem adentrarem nos portos do Paraná e Santa Catarina. O próprio ministro da justiça escreveu carta ao Governador Borges de Medeiros considerando inútil o isolamento de doentes, e afirmando que a gripe que já havia chegado a Rio Grande, fatalmente atingiria Porto Alegre.
            A Espanhola viajou de navio e levou muitos meses para chegar a alguns lugares, e não atingiu alguns pontos mais remotos. Já o Corona Vírus viajou de avião e foi para alguns lugares de um dia para o outro. Avança com grande velocidade. O medo é de que essa crise venha a atingir a todos nós. O vírus, salvo resultados favoráveis de novos testes, não pode ser tratado. Com medidas adequadas os efeitos desta pandemia podem ser diminuídos, mas não eliminados. Uma boa parte dos habitantes do planeta vai contrair o Corona Vírus, com sintomas ou não, e só então teríamos o surgimento de uma população imune, pois ainda não dispomos de vacina para acelerar o processo. O ciclo natural de contaminação, apresentação de sintoma, sobreviver à doença, produzir anticorpos e tornar a humanidade imune, deve durar muitos meses. Enfim temos um período relativamente longo de preocupações pela frente. Há governos mais preocupados com a economia do que poupar vidas. Isto assusta a muita gente.
          A lição da Gripe Espanhola já tem mais de cem anos, e parece haver sido esquecida. Quem poderia imaginar que a maioria dos sistemas de saúde dos países, até do primeiro mundo, se mostrariam insuficientes para dar conta da demanda no atendimento aos acometidos? Quem poderia imaginar que o mundo e suas grandes potências não tinham um planejamento de enfrentamento de uma pandemia? Que o nosso arsenal medicamentoso não disporia de nada eficiente para curar uma doença nova? Que um vírus, um simples filamento de RNA, poderia se transformar e invadir células humanas de maneira tão fácil e ser potencialmente letal para algumas pessoas?
        Estávamos em uma falsa sensação de segurança em relação à ciência e o seu poder de enfrentamento de doenças novas, bem como ao sistema econômico mundial e de alguns países mais pobres, que mostram uma vulnerabilidade impressionante frente a um curto período de parada de atividades econômicas.  A economia mundial não tem poupança para enfrentar alguns meses de recolhimento de boa parte da população em casa. A doença e a fome, portanto são ameaças bem presentes sim, mesmo nos tempos atuais.
         Em todos estes momentos de apreensão e de crise a sociedade reage e se transforma. Despertamos a solidariedade adormecida e cobramos das autoridades as medidas necessárias para superar os problemas. Da Gripe Espanhola não aprendemos todas as lições. Vamos superar tudo isto em algum momento, porém, vamos aprender todas as lições possíveis para deixar para as futuras gerações?

         *Cirurgião-dentista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul   
              Mestrando em história pela Universidade de Passo Fundo.

Referência
TORRES, Luiz Henrique. A Gripe Espanhola e o colapso do cotidiano. In: Imprensa, história, literatura e informação. Anais do II Congresso Internacional de Estudos Históricos. FURG, Rio Grande, 2007.

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